quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Ninguém se machuca

Scarlett não conseguia acreditar em sua sorte. Desde que se lembrava, sempre fora apaixonada por Brad Depp. Agora, para sua surpresa, tinha esbarrado com ele em sua casa de férias escondida nas Bahamas, que nem os paparazzi sabiam que existia.
Além disso, quando Brad viu a mulher que andava solitária na praia, ofereceu um drinque a ela e, enquanto conversava, ele se revelou tão charmoso quanto ela imaginara. Então ele admitiu que tinha ficado um pouco solitário nas últimas semanas, e apesar de, devido a seu estilo de vida, aquilo ter de permanecer em segredo, gostaria muito que ela passasse a noite com ele.
Havia apenas um problema: Scarlett era casada com um homem que amava muito. Mas o que os olhos não vêem o coração não sente, e ele jamais saberia. Ela teria uma noite de fantasia e Brad um pouco de conforto. Todos permaneceriam ou como são ou sairiam mais ricos pela experiência. Ninguém sofreria. Com tanto a ganhar e nada a perder, que razão poderia haver na Terra para Scarlett resistir aos fabulosos “olhos de venha para a cama” de Brad?

(FONTE: BAGGINI, Julian. O Porco Filósofo)

Podemos dizer que, em Scarlett aceitando a proposta de Brad, que sua conduta não traz nada de problemático? Se você confia em alguém, o que se perde quando esta confiança é traída? Se ninguém mais ficar sabendo, aparentemente nada será perdido e tudo continuará como está. Mas será mesmo que é assim que funciona?
Geralmente em um relacionamento, como um namoro ou casamento, a confiança é uma das coisas principais para ambas as partes envolvidas. Muitas vezes, como no caso do marido de Scarlett, não sabemos se essa confiança é quebrada ou não e ela continua existindo mesmo havendo a traição. Porém, para uma pessoa que possui valores dentre os quais encontramos a confiança não conseguiria agir de tal modo sem sentir-se mal com tal situação. E o fato de a outra pessoa não saber que foi traída parece aprofundar ainda mais o mal-estar. Apesar de a confiança ter sido traída e aparentemente ninguém se machucar, como poderiam todos sair ilesos ao mesmo tempo que algo tão importante quanto à confiança é quebrada?

Para fins didáticos cabe aqui fazer uma distinção entre ética e moral. A ética é uma área da filosofia que visa investigar os problemas resultantes do agir humano através da fundamentação e discussão dos juízos de valor que embasam as condutas humanas fundadas em valores. A moral, por sua vez, pode ser considerada como um conjunto de normas vigentes em uma sociedade que, além de servir de critério para a apreciação ou depreciação de uma ação (dizer de uma ação que ela é moral, imoral ou amoral), disciplinam ou orientam a conduta dos indivíduos dessa sociedade. A ética pode ser considerada como uma ciência (num sentido mais amplo) da conduta, enquanto que a moral seria seu objeto de estudo.

Podemos delinear duas concepções fundamentais de ética:

1°) A ética como uma ciência do fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada, levando em consideração os meios para atingir esses fins, deduzindo tanto o fim quanto os meios da natureza do homem. Por exemplo: para Aristóteles (nas próximas aulas veremos mais detidamente a teoria das virtudes), a finalidade da conduta humana é a felicidade, e esta somente pode ser alcançada a partir da natureza racional do homem, esta permite que os homens ajam através da virtude ao invés de cometer excessos ou mesmo deixar de agir. Ou seja, o fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada é a felicidade e os meios para alcançar este fim são as ações pautadas na razão que fazem com que os homens ajam virtuosamente. Tanto o fim quanto os meios são deduzidos da natureza do homem.

2°) A ética como ciência do móvel da conduta humana que procura determinar este móvel com vistas a dirigir ou disciplinar as ações dos homens. Por exemplo: Segundo Bentham e a maioria dos utilitaristas (trabalharemos um pouco da sua teoria nas próximas aulas) a conduta do homem é determinada pela expectativa de prazer ou de dor e esse é o único motivo possível para a ação humana, que seria dirigida para tal fim.

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