As culpas de um Inocente
Mateus Romanini
Era um dia chuvoso de 1987, à noite somente se viam os vultos de duas pessoas, uma delas parecia carregar nos braços um pequeno pacote. A outra, de silhueta menos robusta, andava cambaleante, como se a pouco tivesse passado por enorme desgaste físico. Parecia que estavam à procura de abrigo, pois a chuva era bastante intensa. Nada se ouvia além do barulho da chuva que caía incessantemente.
Mateus Romanini
Era um dia chuvoso de 1987, à noite somente se viam os vultos de duas pessoas, uma delas parecia carregar nos braços um pequeno pacote. A outra, de silhueta menos robusta, andava cambaleante, como se a pouco tivesse passado por enorme desgaste físico. Parecia que estavam à procura de abrigo, pois a chuva era bastante intensa. Nada se ouvia além do barulho da chuva que caía incessantemente.
Depararam-se com uma casa que era bem iluminada, que dava a impressão de ser um local bastante acolhedor. Foi então que a silhueta mais robusta adentrou o pátio e deixou o pacote que carregava de modo mecânico, como se ali não houvesse nada de valor. A silhueta menor tremia e em movimentos quase convulsivos parecia soluçar. Ao deixar o embrulho em uma área coberta na porta da frente da casa as silhuetas se foram, fazendo antes um sinal, não se sabe que tipo de ruído, para que as pessoas que estivessem no aconchego daquele recinto saíssem e descobrissem que lhes fora deixado algo.
Ao acender a luz e sair pela porta da frente, Ari se depara com o pacote, que agora parecia se mexer! Ao desenrolar os panos que envolviam seu conteúdo, surpreso ele viu que se tratava de uma bela criança. Possuía um tom de pele como o seu e belos olhos escuros também. Ainda não possuía cabelos e sorria com uma docilidade irresistível mesmo com aquele tempo úmido e frio. Tratava-se de um menino que alguém ali abandonara e por algum motivo deixara aos seus cuidados.
Solange, esposa de Ari, ao ver o que o marido trazia nos braços não sabia o que dizer a não ser que era um presente de Deus. Ela, por ter uma saúde bastante frágil e debilitada, não podia engravidar. Ambos haviam se apegado à religião como forma de buscar a realização do sonho de formar uma família. Não foi difícil eles se decidirem pela adoção do menino a quem resolveram dar o nome de Cristian.
Dias depois, Solange encontrou em meio aos trapos nos quais Cristian estava envolto na noite em que foi encontrado na frente de sua casa um bilhete cuja mensagem continha informações sobre os pais da criança. Ela é uma jovem que ao engravidar aos 16 anos havia sido mandada embora de casa pelo pai. Ele um homem de 20 anos, desempregado e viciado em álcool não tinha condições de manter uma família. Continha no bilhete ainda seus primeiros nomes: Cláudia e Artur. Ao saber das novidades Ari decide, com o consentimento de Solange, manter isso em segredo e nunca revelar a Cristian a origem de seus pais biológicos.
O tempo passou e Cristian, como todo mundo, cresceu. Aos 21 anos foi morar num bairro distante do qual foi criado. Até então trabalhara na sapataria junto com seu pai. Eram pobres, porém conseguiam viver bem e com dignidade, nunca lhe faltara comida, carinho ou educação. Fora criado num lar amoroso onde seus pais lhe devotavam enorme afeto. Seu caráter condizia com sua formação, era um homem justo, temperante e que não agia em desrespeito aos outros de forma alguma. Ele nunca teve problemas com o fato de ser um filho adotado, amava muito sua família e não se questionava muito sobre seus pais biológicos.
Soube que abrira uma pequena fábrica no ramo dos calçados em um bairro distante e que precisava de funcionários. Ele aprendera muito com seu pai e pensou que sua experiência poderia lhe dar um bom cargo, resolvera então sair de casa e morar próximo ao seu trabalho.
Este bairro no qual Cristian foi morar era conhecido por haver pessoas envolvidas com tráfico de drogas e por este motivo Solange e Ari temiam por seu filho. Mas nada seguraria Cristian em casa.
Este bairro no qual Cristian foi morar era conhecido por haver pessoas envolvidas com tráfico de drogas e por este motivo Solange e Ari temiam por seu filho. Mas nada seguraria Cristian em casa.
Ao chegar lá Cristian conheceu outra realidade. As pessoas andavam com medo nas ruas e a história do tráfico, que ele pensava ser exagero, era real e pior do que haviam dito. Segundo moradores, havia um homem que comandava as atividades do bairro, era um sujeito truculento que não media esforços para garantir sua posição no bairro. A polícia não fazia nada contra, policiais eram subornados ou mesmo tinham suas famílias ameaçadas. Este terrível homem era conhecido como Azão, nome que Cristian associou a uma asa grande que encobre a localidade do bairro.
Por mais que a realidade pudesse ser pior do que a que Cristian imaginara, ele não se intimidou e continuou vivendo no bairro e crescendo no seu emprego na fábrica. Cada mês ele ajudava seus pais enviando-lhes alguma quantia em dinheiro, como não era de sair muito e tão pouco gastava dinheiro a toa sempre tinha um pouco sobrando.
Cristian gostava de freqüentar um bar que havia próximo a sua casa, gostava de tomar uma ou duas cervejas nos fins de semana, sem exageros. Foi numa dessas idas ao bar que ele conheceu Cláudia, uma linda jovem de 17 anos que quase todos os fins de semana estava neste mesmo estabelecimento. Eles começaram a namorar e acabaram se apaixonando. Ela nunca lhe falava muito sobre sua vida, simplesmente gostava de ficar com Cristian que, para não causar nenhum mal estar, não se detia muito em assuntos os quais ele via que não agradavam Cláudia.
Em um fim de semana qualquer, estava Cristian a tomar sua cerveja quando notou que o bar, por algum motivo que ele não compreendia, esvaziara. Um homem em torno dos 40 anos adentrara. À primeira vista parecia estar muito bêbado e louco para arrumar encrenca. Veio para cima de Cristian e perguntou se era ele que estava “pegando” sua filha. Cláudia nunca havia lhe dito quem era seu pai, portanto não havia como Cristian confirmar ou não a pergunta. Este homem era extremamente rude e violento e, por pensar que o jovem estava de má vontade com ele, começou a espancá-lo violentamente. Em toda sua fúria o homem sacou uma arma e apontou para o jovem. Cristian aproveitando um momento de desequilíbrio causado pela embriaguez do homem saltou em sua direção derrubando-o causando um enorme estardalhaço que chamou a atenção da rua toda. Após este momento de adrenalina ele sentiu um calor úmido em seu peito, ao tocar com as mãos viu que era sangue. Desesperou-se, a arma disparara e ele seria a vítima do disparo. Logo averiguou que não sentia dor e ao olhar para o homem de 40 anos viu que este não se mexia, estava com os olhos abertos, mas não respirava. Ele havia matado um homem. Sentia-se condenado por seu crime, mais ainda, sentia-se condenado por matar o suposto pai de Cláudia. Saiu correndo em meio as pessoas que se aglomeravam no bar, entre elas estavam Cláudia e sua mãe.
No outro dia nem saiu de casa. Também ninguém veio importuná-lo. Ele estranhou isso, esperava a visita da polícia ou mesmo de Azão ou seus comparsas. Em meio a sua culpa começou a pensar que não havia sido culpa dele, que não fora ele que puxara o gatilho, que aquele infeliz incidente havia sido acidental e que ele não deveria sentir-se tão culpado por ter tentado de alguma forma salvar sua própria vida. Isso causou certo alento a ele, dormiu em seguida, cansado por ter pensado tanto em uma razão que o fizesse sentir melhor.
Neste mesmo dia, do outro lado da cidade, os pais de Cristian liam o jornal. Na página policial havia uma notícia sobre a morte de um influente traficante em tiroteio com a polícia em frente a um bar do mesmo bairro de Cristian. Seu nome era Artur Azevedo, conhecido por Grande A ou Azão, 41 anos e muitas passagens pela delegacia. Solange quase desmaiara de preocupação com seu filho antes mesmo de terminar de ler a notícia, que terminava dizendo que não houve moradores feridos. Na mesma operação foram presos mais quatro comparsas de Artur, o que fez com que o grupo criminoso se dispersasse. Ari ao terminar de ler a notícia ficou pensativo.
Neste mesmo dia, Cristian foi acordado de seu sono por algumas leves batidas na porta. Chegou a pensar que fosse a polícia, impressão que logo se desfez ao abrir a porta. Era Cláudia, acompanhada de uma mulher que aparentava ter seus 30 e poucos anos, eram muito parecidas e Cristian pensou que fossem irmãs. Convidou-as a entrar. Cláudia apresentou sua mãe a Cristian, que se surpreendeu e passaram a ter uma conversa sobre o acontecido. Elas não pareciam abatidas e falavam do quanto sofriam nas mãos de Artur, foi aí que Cristian teve a confirmação de que o homem morto no bar era mesmo pai de Cláudia que passou a ser chamada de Claudinha depois de saber que tinha o mesmo nome de sua mãe. Cláudia não falava, deixava que a filha o fizesse. Mas ela ficava fitando-o com um ar melancólico e ao mesmo tempo doce e terno, como se já o conhecesse de outros lugares. Cristian ficou horrorizado com as histórias contadas por Claudinha. As duas pareciam até mesmo agradecidas pelo ocorrido, pois elas não sabiam mais o que fazer para fugir daquela vida. Por este motivo Claudinha nunca falava de sua vida pessoal para Cristian. Ambas também lhe contaram sobre as notícias que saíram nos jornais, nos quais seu nome não era citado, pois havia uma lei no bairro, esta dizia que deveria ser protegida a pessoa que faz um grande bem pela comunidade mesmo que infringindo as leis jurídicas. E a polícia por sua vez contribuiu com a história, pois Azão era um fardo demasiado pesado para eles também. Claudinha beijou Cristian e as duas foram embora com Cláudia apenas abrindo a boca para bocejar e desejar uma boa noite para Cristian. Este se sentiu ainda mais aliviado por livrar duas pessoas de um jugo tão cruel. Então foi deitar-se, pois amanhã era um novo dia de trabalho.
Caminhando para seu trabalho Cristian passava pelas pessoas e, apesar de ainda notar aquele mesmo medo nas ruas, as pessoas pareciam estar mais leves e o olhavam e cumprimentavam como se guardassem segredo de algo e ao mesmo tempo agradecidos por este algo que não podia ser dito. Foi assim o caminho inteiro até seu trabalho, onde foi recebido por seu chefe que lhe confessou que a morte de Artur fora providencial para seus negócios, pois não teria mais que pagar um alto valor que era obrigado a pagar cada mês por ocupar um terreno do “bairro de Azão”, se tivesse que continuar a pagar tal quantia ele teria que fechar sua pequena fábrica de calçados. Disse então a Cristian que ele seria promovido pelos bons serviços que vinha prestando e que receberia um bom aumento de salário. Cristian ficou feliz por isso e agradeceu muito, pois esse dinheiro seria muito bem vindo para ajudar seus pais e melhorar sua vida.
O resto do dia não foi muito diferente dos demais, a não ser pelo assunto das conversas e os olhares de agradecimento direcionados a Cristian. Ao chegar em casa teve uma surpresa, seus pais o esperavam. Estavam muito sérios, apesar de aliviados por seu filho estar bem. Entraram em casa e Cristian comentou sobre as novidades, sua promoção no emprego, seu envolvimento com Claudinha e o incidente ocorrido no fim de semana.
Ari e Solange ficaram chocados por seu filho ter sido responsável por matar um homem, mesmo que tenha sido por acidente. Foi então que Ari começou a falar... Há uns 15 anos atrás ele havia conseguido informações sobre os pais biológicos de Cristian e fora atrás investigar quem eram essas pessoas, descobriu algo aterrador. Seu pai era um indivíduo envolvido com o tráfico de drogas e que não tinha escrúpulos em fazer o que fosse para manter sua posição. Sua mãe era uma mulher submissa que não tinha poder nenhum contra o marido, que batia nela, a traía. Eles possuíam uma filha recém nascida na época. Solange completou que fora por isso que eles vieram ali hoje, mas antes passaram para conversar com Cláudia e sua filha para tirar a história a limpo. Foi só então que eles confirmaram sua suspeita... Cláudia e Artur eram mesmo os pais biológicos de Cristian, Claudinha era sua irmã.
Cristian ficou aturdido com a notícia, não acreditava no que ouvia, não conseguia associar as idéias, tudo parecia ou um grande mal entendido ou um pesadelo que era tão real que suas lágrimas realmente encharcavam seu rosto. Logo ele que nunca se perguntara mais enfaticamente quem eram seus pais adotivos merecia receber a notícia dessa forma, com a morte de seu pai? E pior, sendo ele o responsável? E quanto a Claudinha ser sua irmã... Ele que fora criado dentro de um ambiente fortemente baseado no cristianismo, cometeu incesto? Como poderia ele ter cometido tais coisas, ser responsabilizado por elas se ele não tinha conhecimento de nada disso? Ele cometera parricídio? Ele não sabia o que pensar. Seus pais tentavam confortá-lo, mas isso parecia impossível. Como após um dia que lhe trouxe alguma paz de espírito poderia terminar de forma tão trágica? Era incompreensível para ele sentir tamanho desconforto, pensar nestas coisas horríveis que ele cometera por não ter real conhecimento das coisas. Questionou seus pais por não terem dito a ele quem eram seus pais verdadeiros, pois deste modo jamais teria vindo para o bairro onde eles estariam tão perto. Ele não teria matado seu pai e se apaixonado pela irmã. Logo depois pensou, mas como Ari e Solange saberiam que isso aconteceria? Ninguém poderia saber, é difícil encontrar culpados quando suas ações estão cobertas por um véu de ignorância tão espesso. Tudo já está feito... Cristian dormiu, exausto, chorando no colo de seus pais que também choravam e se lamentavam por não ter conseguido prever o sofrimento que seu filho passaria.
Amanheceu o dia e Cristian não foi trabalhar. Seu chefe e alguns moradores envolvidos com a associação de bairro foram a sua casa. De alguma maneira ficaram sabendo da história, alguém ouvira Solange conversando com Cláudia e espalhara a notícia que deixou todos aturdidos. Como poderia seu herói do fim de semana se tornar vilão no dia seguinte? Havia uma norma, assim como a que protegeu Cristian, que dava a entender que o assassinato de um parente muito próximo é um crime imperdoável. Matar o pai é um crime imperdoável, mesmo que esse pai seja um sujeito nocivo as pessoas que o cercam, os laços de sangue falam mais alto. Avisaram a Cristian que ele seria julgado pela comissão de bairro se seria entregue ou não à polícia.
Ele foi à associação de bairro para ser julgado. Estava acompanhado de seus pais e lá estavam também Cláudia, sua mãe biológica, e Claudinha, sua irmã. Lá ele foi acusado de dois crimes contra os costumes do bairro: o primeiro, incesto. Enamorado da irmã praticou atos que não deveria ter praticado com uma parenta tão próxima; o segundo, ter matado seu pai. As pessoas estavam chocadas e não sabiam o que dizer de dois atos tão baixos. Era praticamente inevitável a sua punição, ninguém mais lembrava que Azão era um crápula que amedrontava todos no bairro, agora ele era o pai assassinado por Cristian.
Cristian foi julgado pela associação de bairro. Estava quase sendo declarado culpado quando seus pais, Ari e Solange, resolveram dar voz a seus sentimentos. Declararam-se tão culpados quanto o filho, pois não haviam o informado sobre a origem de sua família biológica, se alguém fosse entregue à polícia, eles deveriam ser essas pessoas. Foi então que Cláudia levantou-se e como se quisesse expurgar toda a culpa que carregou por 21 anos, desde quando assentiu em largar seu filho recém nascido na porta de uma casa desconhecida, disse que quem deveria ser punida era ela e Artur se este estivesse vivo. Se eles não tivessem abandonado o filho nada disso teria acontecido, em compensação provavelmente ele seria mais um marginal nas ruas do bairro, talvez pior que Azão. Claudinha também tomou a palavra declarando-se tão culpada de incesto quanto Cristian, dizendo que ela o amava, mas que as coisas nunca mais seriam as mesmas depois de todos os esclarecimentos. Por fim, o patrão de Cristian, a quem prezava muito, tomou a defesa deste. Argumentou que: como alguém pode ser acusado de matar alguém que nunca conheceu? Ou de namorar alguém com quem nunca teve contato? Acusam Cristian de matar um pai que ele jamais havia conhecido! Da mesma forma a irmã. Podem atribuir culpa por ele ter matado um homem, mas não de ter matado seu pai! E continuou dizendo que era necessário lembrar que os moradores protegem-se mutuamente contra quem lhes faz mal. Cristian livrou-os de um grande mal, foi o responsável pela morte de um homem que fazia muito mal à sociedade e ele não tinha conhecimento que era seu pai. Com esta defesa os membros votaram pela absolvição de Cristian. Ele não era culpado por aqueles crimes horríveis.
Mesmo não sendo culpado, as pessoas por quem ele passava na rua olhavam-no com desconfiança. Ele era muito bem tratado por seu chefe, mas seus colegas de trabalho o evitavam. Cláudia e Claudinha mudaram-se para outra cidade, tentar “dar um jeito” em suas vidas. Mantinham parco contato, que cada vez foi definhado mais e mais, até nunca mais se falarem. Cristian só conseguiu superar seu trauma por causa da ajuda de seus pais, Ari e Solange. Estes serviram de pedra fundamental para a reestruturação da sua vida por um bom tempo. Cristian continuou a ser o bom homem que sempre foi, porém em seus olhos não se via mais o mesmo brilho de antes, via-se a triste opacidade de quem pensa nas suas limitações, de quem sabe que não tem controle sobre as coisas, daqueles que sabem que todos os nossos atos têm conseqüências que dificilmente podemos prever.
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